Review – Sónar São Paulo 2012

Publicado em 18/05/2012 - Por Mohamad Hajar

O Sónar São Paulo foi um dos poucos festivais onde pôde-se ver realmente a música eletrônica sendo tratada como música, pura e simplesmente, sem qualquer necessidade de rótulo ou classificação. A denominação “Música Avançada” utilizada na legenda, que a princípio parecia arrogante para muitos, logo foi compreendida por quem pôde comparecer ao evento, e se justificou como uma das poucas maneiras de tentar explicar a complexidade e a variedade de todas as atrações selecionadas para os dois dias do festival. O que se viu no espaço montado no Anhembi em São Paulo foi uma pequena brecha do caminho que as novas tendências no mundo da música estão tomando, e a visão é muito otimista. Tem muita coisa boa vindo por aí!

 

É claro que a edição tupiniquim ainda não alcançou a mesma vanguarda que o festival original, realizado desde 1994 em Barcelona. Mas em comparação com o que temos visto no país nos últimos anos, este, com certeza, foi um passo importantíssimo para o amadurecimento desta cena. Provando que temos espaço, público e potencial para mais eventos de alta qualidade como esse, sem precisar apelar para um line-up recheado de mega estrelas, que vão vender mais ingressos, encher a pista e agradar a massa com o garantido mais do mesmo. 

Aliás, a previsibilidade passou longe do Sónar São Paulo. Por mais que você não gostasse do som que algum artista estivesse apresentando no palco, era impossível não respeitá-lo, pois a autenticidade emanava de cada apresentação. E eram tantas ótimas opções, que nem dava para se frustrar por abrir mão de um ou outro artista que você tinha escolhido assistir, pois era fácil encontrar alguma outra atração tão interessante quanto nos outros espaços. 

Outro fator que ficou muito claro no festival foi que cada vez mais será impossível separar o áudio do video em grandes apresentações. Isso já não é novidade há muito tempo, mas mesmo assim, foi a primeira vez que pôde-se ver isso com tanta intensidade e de tantas formas distintas reunidas no mesmo lugar. Em muitos festivais, que apesar de já investirem muito em telões de alta resolução, lasers e excelentes VJs, a parte visual acaba ficando muito generalizada, pois acabam utilizadas da mesma forma por todos os artistas. No Sónar, o que se viu em grande parte das apresentações foi o visual ser utilizado como um elemento indissociável do áudio, e cada performance aplicou isso de uma forma particular, em perfeita sincronia com a identidade do seu trabalho. Desde o aguardado 3D do Kraftwerk, ao explosivo palco de LEDs do Squarepusher, passando pelo ultra experimentalismo “pra-frentex” da dupla Alva Noto & Ryuichi Sakamoto e pela barulhenta e sensacional banda de pós-rock Mogwai, chegando até ao tradicional telão com projeções do Modeselektor, nenhuma dessas apresentações teria sido a mesma sem as intervenções visuais. 

Nesse sentido, talvez a performance que mais tenha impressionado foi a do Justice. Você pode não gostar do som, achar pop, pasteurizado ou batido demais. Confesso que eu também fomos assisti-los sem botar muita fé na dupla, e esperávamos um show previsível e recheado dos hits que já estamos cansados de ouvir. Mas queimamos a língua, e não nos arrependemos nem um pouco. O que presenciamos foi um espectáculo visual de deixar o queixo caído, e de uma simplicidade que chega a dar raiva. Cada elemento que surgia no palco era muito bem pensado, sem precisar ser absurdamente extravagante, cada mudança de iluminação alterava completamente o clima da plateia, e um simples globo de espelhos conseguia transformar o pavilhão do anhembi num imenso céu estrelado e colocar toda a plateia exatamente no clima que a música pedia. Esse é o tipo de espetáculo que faz valer o seu ingresso, pois é impossível viver aquela experiência de qualquer outra forma. Se você assistir o mesmo show pelo DVD, pelo Youtube, ou mesmo se você estivesse passando lá pelo fundo do Anhembi, indo pro banheiro e resolvesse dar uma olhadinha de longe, nunca teria o mesmo impacto de estar imerso no meio da plateia e se deixando conduzir, tanto pela música quanto pelo visual. Muito provavelmente não teríamos gostado desse show somente pela música, pois convenhamos que o Justice já usou e abusou da sua fórmula hitmaker, mas o espetáculo como um todo foi realmente impressionante, e deixou claro o quanto a música está ficando cada vez mais visual. Esse é um caminho sem volta, ainda bem!

Por outro lado, James Blake foi a inovação musical mais impressionante, com seu live de deixar qualquer um de queixo caído. Sem nenhum aparato visual além das luzes de palco, apenas sua voz, seus sintetizadores e o acompanhamento de mais dois músicos para a base foram suficientes para ele ser classificado como o mais “forward thinking” do evento. Seu trabalho, que mistura sub-graves absurdos com melodias delicadas e uma voz afurtunada é único no mundo todo, e servirá de referência para muita coisa que virá pelos próximos anos. Assim como o show do Justice, é algo impossível de se entender pelo YouTube – era preciso estar dentro do Sónar Hall para sentir o grave vibrar em todo o seu corpo, e para atingir sensações extremas com a construção 100% ao vivo das músicas. Foi inesquecível!

Decepção musical foram poucas – dos que pudemos ver, Skream talvez tenha sido a maior. Aguardadíssimo pela galera “true” do dubstep britânico que odeia Skrillex, ele surpreendeu todo mundo ao mandar um som muito mais barulhento e desconexo que do americano. Ainda apelou para um Nirvana puro no encerramento, para tentar se salvar, uma pena. De resto, nada tão ruim que mereça ser criticado – de uma forma ou de outra, praticamente todos os artistas fizeram jus ao espaço que receberam no festival.

 

As falhas na organização do evento foram poucas, mas ficaram por conta dos grandes atrasos nos inícios das apresentações e na falta de informação dentro do espaço do Anhembi. Para quem chegava pela primeira vez no evento, era muito fácil se perder entre tantos corredores, e a falta de sincronia com os horários iniciais fizeram muita gente perder suas atracões favoritas. Uma ideia bacana para as próximas edições, seria instalar algumas telas parecidas com aquelas de aeroporto, indicando quais são as próximas atrações em todos os espaços, se houve algum atraso ou alteração, sem obrigar o público a perder tempo zanzando entre os palcos, apenas para ver se algum show começou ou não. Ou quem sabe um aplicativo de smartphone, caso um dia a gente consiga uma conexão 3G de verdade.

 

De forma geral, dá pra dizer sem medo: foi um dos melhores festivais que este país já hospedou. Ele mudará a cena brasileira de uma forma drástica e positiva, e os reflexos devem ser sentidos já nos próximos meses. E pra finalizar, um pedido bem pertinente de Camilo Rocha: “Um Sónar a cada dois meses, seria pedir muito?”.

Escrito a quatro mãos, por mim e Thiago Nakaguishi, da Yellow. Fotos por Christ e Thiago – cobertura completa na nossa fanpage, neste link.

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