Coisas da Cena
Publicado em: 10 de janeiro de 2013 | Atualizado em: 11 de abril de 2013

Clubs X Público em geral e Underground X Mainstream.De que lado está o problema?

Uma análise das questões relacionadas ao crescimento do mercado e dos responsáveis pela qualidade musical da cena eletrônica atual.


Não há dúvidas em que estamos em uma grande fase. A quantidade de festas acontecendo e a visibilidade atual do nosso país, seja pelo surgimento de vários talentos ou por termos nos tornado uma importante rota de festivais, franquias de Clubs e consequentemente destino certo de artistas internacionais, é de fato algo relevante. Com o "boom" recente, devido em parte pela fusão com o Pop, que data o início dos anos 90, consolidando-se de fato nos últimos anos, do crescimento do mercado explicado pela expansão da renda e consequentemente da base consumidora, fizeram aumentar de forma exponencial a quantidade de pessoas envolvidas.

É natural que esse novo "contingente" seja inserido através de eventos com um cunho mais comercial, em razão de uma maior identificação com as músicas já conhecidas. A medida que vão sendo apresentados à novas sonoridades, e passando assim a ter um conhecimento um pouco maior sobre o "assunto", o que se espera é uma migração para outros tipos de festa mais conceituais. Aí que entra a importância da Curadoria Artística dos Clubs de escolher sempre artistas que mostrem novidades ao público. Mas é imprescindível que estes "consumidores" estejam também dispostos a esse tipo de produto, sendo assim educados musicalmente.

Alguns afirmam que a cena nunca esteve tão conceitual, embalado pela recente "explosão" de DJs de deep-house. Estes mais tradicionais por sua vez, apontam também uma grande falta de qualidade no cenário atual, defendendo a vertente como solução imediata para a resolução de todos os problemas. Mas tais "extremistas" se enganam, pois desde que a música e os produtos que giram em torno dela tornaram-se puramente comerciais (no sentido de vendáveis), essa cultura dita "alternativa" perdeu grande parte da sua autenticidade. O que se vê hoje nada mais é que um meio termo entre o "underground de mercado", ou algo como "mainstream rebuscado".

Para quem é restrito à outros estilos, Steve Aoki pode até parecer um tanto underground. Compreensível, pois eles só conhecem David Guetta. Para o pessoal do mainstream, Solomun é conceito, mas para quem é conceito ele é comercial. Para os que vão à festivais de música avançada, como o Sónar, e acompanham artistas com uma linha de som mais experimental, exatamente tudo que exista fora de lá, por mais conceitual que seja, não passa de pura "chacota". Ou seja, essa classificação é relativa, pois depende da base de comparação. O que acaba tornando a divisão entre as duas correntes por vezes tênue ou inexistente.

Aí vem a pergunta fundamental: A cena ser comercial é ruim? Absolutamente não. Muita coisa que é underground hoje vai se tornar mainstream no futuro, e todo público conceito atual, já curtiu um som "mais acessível" um dia. Ninguém nasce "especialista" ou deixa de frequentar gêneros mais populares, passando a ir à festas mais "cabeçudas" de e-music, assim de uma hora pra outra. É um processo muitas vezes lento e gradual. A questão não está em "angariar um maior rebanho", e sim em manter um padrão aceitável. O problema ocorre de fato quando o lucro torna-se o fator mais importânte a ser levado em consideração.

Mas o que aconteceu de um passado recente para cá, é que o grande público perdeu sua capacidade crítica. Há muito pouca identidade com determinados gêneros, o que os leva a transitar muito facilmente por diversos estilos de festa em um final de semana, e as vezes o que está tocando nem é um diferencial a ser levado em conta. Claro que cada um tem o seu direito de escolha e nem sempre estamos dispostos a ouvir algo tão primoroso. Mas me refiro a um "consumo" com o mínimo de qualidade. Não apenas do eletrônico, e sim de música "boa", indiferente ao gênero. Há coisas excepcionais e descartáveis em qualquer vertente que seja.


Se estes consumidores passassem a ser um pouco mais exigentes, cobrando assim total empenho dos envolvidos, não haveria tal volume de gente disposta a frequentar eventos sem organização e recheados muitas vezes de pseudo-artistas. O amor à música que quase todos dizem sentir, é realmente muito bonito, mas se não há o retorno desejado será facilmente trocado por algo que possibilite isto. Situação muito facilmente explicada por um dos conceitos mais básicos da Ciência Econômica, que é a lei da Oferta e Demanda. Trazendo para o "nosso universo", o público seria o demandante e os donos os ofertantes.

Deste modo, os agentes são em grande parte movidos pelo que gera um maior custo de oportunidade, definindo suas estratégias baseados no retorno esperado. Como o consumo é alto, a oferta também se mantém em níveis elevados. Auxiliados por essa falta de critério dos frequentadores, tornou-se usual por alguns promoters venderem toda e qualquer festa como a maior e melhor, ou fazer uso de expressões superlativas do gênero. Além de ser uma enorme prepotência e uma divulgação com apelo ineficaz, desmerece também os demais profissionais da área, deixando mais claro quão medíocre é o evento em questão.

Quem é da área do Marketing ou simplesmente não compactua com sensacionalismos desnecessários, sabe que palavras como essas devem ser evitadas. O que é bom para um pode não ser para outro. Com isso, determinados adjetivos qualitativos se tornam extremamente subjetivos. Ainda mais se tratando de música, que é uma questão muito pessoal. Quem é reconhecido pela qualidade, não precisa usar exclusivamente de artifícios falaciosos para "promover seu produto". Existem maneiras bem mais eficientes, como enaltecer os pontos fortes, o diferencial no mercado, a busca pela excelência, entre outras.


Anteriormente julgava os proprietários como os principais responsáveis pela falta de qualidade, mas depois percebi que estes não são os únicos. Alguns até apostam em sonoridades mais conceituais no início, mas com seguidos prejuízos são "forçados" a migrar para um caminho mais comercial e por fim, em algo qualquer que gere lucro. É preciso anteriormente criar e formar um "quórum" do zero. Caso seja algo realmente inédito, torna-se indispensável fazer com que essas pessoas primeiramente conheçam, depois passem a gostar dessa novidade, e por fim frequentem tais festas com regularidade, para aí tentar "voos maiores".

Claro que isso não chega a ser uma regra. Uma prática ao meu ver que tem ajudados alguns núcleos e Clubs, são as chamadas listas amigas, que acabam por contemplar os frequentadores mais assíduos. Pois nada mais justo que ser cobrado um valor inferior daqueles que estão sempre prestigiando e assim ajudando no fomento dos artistas locais, diferentemente dos que vão vez ou outra. Além de manter um número regular de pessoas nos eventos, essa receita gerada é substancial para manter a normalidade das atividades, pois auxilia nas despesas essenciais, como principalmente as fixas, por exemplo.

Sendo assim após o exposto, fica claro portanto, que não precisamos de uma cena mais underground, mainstream ou lucrativa. Necessitamos de uma parcela maior de envolvidos que acreditem e apostem impreterivelmente na qualidade. Carecemos ainda mais de um público que tenha personalidade e a capacidade de filtrar o que realmente vale a pena, não engolindo de forma passiva qualquer artista qualquer alçado ao sucesso. Já passou da hora de tratarmos como prioridade a grande estrela da noite como ela merece, com RESPEITO e muito menos ostentação. UM SALVE A MÚSICA DE VERDADE!

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Espero que tenham gostado. Até a próxima!

imagem de alexandrealbini
Escrito por: Alexandre Albini

DJ pela AIMEC no ano de 2007. Colaborador do Portal Fly by Nighjt e do site e revista House Mag. Tem como hobbie escrever sobre música eletrônica nas horas vagas. Sua linha musical atual engloba o Minimal e Deep/Nu-Disco.

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