Coisas da Cena
Publicado em: 10 de janeiro de 2013 | Atualizado em: 04 de março de 2015

Clubs X Público em geral e Underground X Mainstream.De que lado está o problema?

Uma análise das questões relacionadas ao crescimento do mercado e dos responsáveis pela qualidade musical da cena eletrônica atual.


Não há dúvidas em que estamos atravessando uma grande fase. A visibilidade atual do nosso país — seja pelo surgimento de novos talentos ou por sermos rota de festivais como Tomorrowland, franquias de clubs e consequentemente destino de artistas internacionais — é de fato algo relevante. Com o boom recente, devido ao pop ter se tornado ainda mais eletrônico — que data o início dos anos 90, consolidando-se de fato nos últimos anos — e do crescimento do mercado (explicado pela expansão da renda e consequentemente da base consumidora), fizeram aumentar de forma exponencial a quantidade de pessoas envolvidas.

É natural que esse novo contingente seja inserido através de festivais com um cunho mais acessível, em razão de uma maior identificação com as sonoridades já conhecidas. A medida que vão sendo apresentados à outros tipos de som, passando assim a ter um conhecimento um pouco maior sobre o assunto, o que se espera é uma migração para outros tipos de festa mais conceituais. Neste ponto que entra a importância da curadoria artística dos clubs em escolherem artistas que mostrem novidades ao público. Mas é imprescindível que estes consumidores estejam dispostos também a esse tipo de produto, sendo assim educados musicalmente.

Alguns afirmam que estamos passando por uma nova fase conceitual, embalado pela recente explosão de DJs de deep-house. Os mais tradicionais, por sua vez, apontam uma falta de qualidade, defendendo tal vertente — em sua face mais pura — como uma possível solução para este problema. Mas a maioria não leva em conta que desde que a música e os produtos associados tornaram-se na maioria das vezes comerciais (no sentido de vendáveis), essa cultura dita "alternativa" perdeu boa parte da sua autenticidade. O que se vê hoje nada mais é do que pode ser chamado de "underground de mercado", ou algo como "mainstream rebuscado".

Para quem não é tão habituado com o eletrônico, Amine Edge pode até parecer "alternativo". Compreensível, pois eles possivelmente só conheçam David Guetta. Para o pessoal do mainstream, Solomun é "underground", mas para os conceituais ele é "comercial". Para os que vão à festivais de música avançada, como o Sónar, e acompanham artistas com uma linha mais experimental, boa parte do que existe fora daquilo talvez não represente tanta relevância ou musicalidade. Ou seja, essas classificaçôes são relativas, pois dependem da base de comparação. O que acaba tornando a divisão entre as duas correntes por vezes subjetiva.

Aí incluo: A cena ser "comercial" é ruim? Se for analisado pela ótica da expansão do mercado, não. Algo que é considerado "alternativo" atualmente pode vir a se tornar "mainstream" no futuro (o dubstep em 2011 é exemplo disso), e boa parte do público conceito de hoje, já curtiu um som mais acessível um dia. Ninguém nasce especialista e passa a frequentar do nada festas mais específicas, pois é um processo de amadurecimento musical que leva tempo. O crescimento é fundamental, mas é preciso atentar-se à qualidade. O problema ocorre quando o lucro torna-se o fator mais importante a ser levado em consideração.

Mas o que aconteceu de um passado recente para cá, é que o grande público perdeu sua capacidade crítico-cultural — e isso não é um fenônemo exclusivamente brasileiro. Há muito pouca identidade com determinados gêneros, o que os leva a transitar facilmente por diversos estilos de festa em um final de semana. Claro que cada um tem o seu direito de escolha e nem sempre estamos dispostos a ouvir algo tão primoroso, mas me refiro a um consumo com o mínimo de propósito. Não apenas do eletrônico, e sim de música que proporcione algo bom, indiferente ao gênero. Há coisas excepcionais e descartáveis em qualquer vertente que seja.


Anteriormente julgava os proprietários como os culpados pela falta de "inovação", mas estes não são os únicos responsáveis. Alguns apostam em sonoridades mais conceituais no início, mas com seguidos prejuízos são forçados a migrar para um caminho menos "arriscado". Se os consumidores passarem a ser mais exigentes, cobrando empenho dos envolvidos, não haveria tal número de eventos precários em organização e recheados de pseudo-artistas. Precisa haver um trabalho intensivo para criar e manter um quórum que se interesse pela arte propriamente dita. Ou seja, é um interesse que pode e necessita ser explorado. 

Esse é um papel que pode ser exercido em menor grau pelos núcleos independentes, por possuírem liberdade para apostar no que acreditam e com uma pressão menor por resultados, o que bem ou mal acaba dando suporte indireto aos clubs, no que condiz à geração de público. Referente à isso, uma prática que ainda tem ajudado são as chamadas listas amigas. Essa receita mínima gerada é substancial para manter o funcionamento das atividades, pois auxilia nas despesas essenciais, principalmente as fixas. Porém nada melhor do que as pessoas poderem adquirir ingressos antecipados à um preço que possa ser considerado "justo".

Sendo assim após o exposto, deixo claro — portanto — que não precisamos de uma cena mais "underground", "mainstream" ou extremamente lucrativa. Necessitamos de uma parcela maior de envolvidos que acreditem e apostem impreterivelmente na qualidade. Carecemos ainda mais de um público que tenha capacidade de se interessar pelo desconhecido e filtrar o que realmente vale a pena, não engolindo de forma passiva ações de marketing cada vez mais agressivas. Já passou da hora de tratarmos como prioridade a grande estrela da noite como ela merece, com respeito e menos ostentação. Um salve à música de verdade!

imagem de alexandrealbini
Escrito por: Alexandre Albini

DJ pela AIMEC no ano de 2007. Colaborador do Portal Fly by Nighjt e do site e revista House Mag. Tem como hobbie escrever sobre música eletrônica nas horas vagas. Sua linha musical atual engloba o Minimal e Deep/Nu-Disco.

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