Coisas da Cena
Publicado em: 10 de janeiro de 2013 | Atualizado em: 03 de maio de 2015

Festivais X Clubs X Núcleos X Curadorias X Público: Quem é o responsável pela qualidade?

Uma análise das questões relacionadas ao crescimento do mercado e dos responsáveis pela inovação musical da cena eletrônica atual.

 

Não há dúvidas em que estamos atravessando uma boa fase. A visibilidade atual do nosso país, seja pelo surgimento de novos talentos ou por sermos rota de grandes eventos, franquias de clubs e consequentemente destino de artistas internacionais, é de fato algo relevante. Com o boom recente, devido ao fenômeno da EDM e do Pop ter se tornado ainda mais eletrônico — que data o início dos anos 90, consolidando-se de fato nos últimos anos — além do crescimento do mercado (explicado pela expansão da renda e da base consumidora), fizeram aumentar de forma exponencial a quantidade de pessoas envolvidas.

É natural que esse novo contingente seja inserido através de festivais com um cunho mais "acessível" sonoramente, em razão de uma identificação com as músicas já conhecidas. A medida que vão sendo apresentados à diferentes vertentes, passando a ter um conhecimento maior sobre o assunto, o que se espera é uma migração para festas mais conceituais. Neste ponto que entra a importância da curadoria dos clubs em escolherem artistas que mostrem novidades ao público. Mas é imprescindível que os consumidores estejam dispostos à esse tipo de produto, sendo assim educados musicalmente.

Alguns afirmam que estamos passando por uma fase de renovação, embalado pela explosão de DJs de deep-house. Os mais tradicionais, por sua vez, apontam uma falta de qualidade, defendendo tal vertente — em sua face mais pura — como uma possível solução para este problema. Porém a maioria não leva em conta que desde que a música e os produtos associados tornaram-se na maioria das vezes "comerciais" — definição que engloba uma parcela considerável do mercado, pelo simples fato de precisar ser viável financeiramente —, essa cultura dita "alternativa" perdeu boa parte da sua abrangência. 

Para quem não é tão habituado com o eletrônico, Amine Edge pode parecer "alternativo". Compreensível, pois eles possivelmente só conheçam David Guetta. Para o pessoal do mainstream, Solomun é "underground", mas para os conceituais ele é "comercial". Para os que vão à festivais de música avançada, como o Sónar, e acompanham uma linha mais experimental, boa parte do que existe fora daquilo talvez não represente tanta relevância ou musicalidade. Ou seja, essas classificaçôes são relativas, pois dependem da base de comparação. O que acaba tornando a divisão entre as duas correntes por vezes subjetiva.

Aí incluo: A cena ser em sua maior parte "mainstream" é ruim? Se for analisado pela expansão do mercado, não. Os gêneros e gostos pessoais estão em constante mudança: algo dito "alternativo" atualmente pode vir a se tornar corrente principal no futuro; e uma parcela do público "conceito" de hoje, já curtiu um som mais acessível um dia. Ninguém nasce conhecedor e passa a frequentar festas mais específicas do nada, pois é um processo que leva tempo. O crescimento é fundamental, mas é preciso atentar-se à qualidade. O problema ocorre quando o lucro torna-se o fator mais importante a ser levado em conta.

O que acontece é que o grande público vem perdendo sua capacidade crítico-cultural — e isso não é um fenônemo exclusivamente brasileiro. Há pouca identidade com determinados gêneros, o que os leva a transitar muito facilmente por diversos estilos diferentes de festa em um final de semana. Claro que cada um tem o seu direito de escolha e nem sempre estamos dispostos a ouvir algo tão primoroso, mas me refiro a um consumo com o mínimo de propósito. Não apenas do eletrônico, e sim de música que valha a pena, indiferente ao estilo. Há coisas excepcionais e descartáveis em qualquer gênero.

Anteriormente culpava os organizadores pela falta de inovação, mas estes não são os únicos responsáveis, quando o que mais se vê são pedidos incessantes pelos mesmos artistas nos eventos. Alguns apostam em sonoridades conceituais, mas com seguidos prejuízos são forçados à migrar para um "caminho menos arriscado". Se os consumidores passarem a serem mais exigentes, possivelmente não haveria tal número de eventos sem organização. Precisa com isso haver um esforço para criar e manter um quórum que se interesse pela arte propriamente dita. Ou seja, é um interesse que pode e necessita ser explorado. 

Papel este que pode ser exercido — em menor grau — pelos núcleos independentes, por possuírem liberdade para apostar no que acreditam e com uma pressão menor por resultados, o que acaba dando suporte indireto aos clubs, no que condiz à geração de público. Referente à isso, uma prática que ainda tem ajudado são as chamadas listas amigas. Essa receita mínima gerada é substancial para manter o funcionamento das atividades, pois auxilia nas despesas essenciais, principalmente as fixas. Porém nada melhor do que poder adquirir ingressos antecipados à um preço que possa ser considerado "justo".

Sendo assim, acredito que não precisamos de uma cena mais "underground" — que possui um significado original totalmente diferente do que vem sendo praticado, pois de contra cultura não tem proporcionado nada —, "comercial" ou lucrativa. Carecemos do trabalho imprescendível daqueles que fortalecem a música eletrônica local/regional, e ainda mais de um público que tenha capacidade de se interessar pelo desconhecido e principalmente pela musicalidade, filtrando o que realmente importa, não engolindo de forma passiva ações de marketing cada vez mais agressivas. Um salve à música de verdade!

imagem de alexandrealbini
Escrito por: Alexandre Albini

DJ pela AIMEC no ano de 2007. Colaborador do Portal Fly by Nighjt e do site e revista House Mag. Tem como hobbie escrever sobre música eletrônica nas horas vagas. Sua linha musical atual engloba o Minimal e Deep/Nu-Disco.

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