Entrevista: Projeto Luz Azul Redução de Danos

Entrevistamos alguns dos participantes do coletivo para sabermos um pouco mais sobre a proposta e os planos para os próximos eventos.

Eliel Cezar em 30 de Agosto de 2017

Quem participou da terceira edição do Warm Up do Psicodelia, dia 24 de junho, na região de Curitiba, teve a oportunidade de conhecer um novo espaço nas festas do grupo: a tenda de Redução de Danos.

A experiência foi tão positiva que inspirou o surgimento do Coletivo Luz Azul – Redução de Danos em contexto de festas. Entrevistamos alguns dos participantes do coletivo para sabermos um pouco mais sobre a proposta e os planos para os próximos eventos.

O que é redução de danos em contexto de festas?

No contexto de festas e na forma que trabalhamos, são ações que procuram minimizar os riscos relacionados a alguns comportamentos frequentes ao consumo de substâncias psicoativas, através de informação, orientação e acolhimento. É uma estratégia de saúde pública, que procura promover bem-estar a partir dos princípios da autonomia e do respeito.

Qual a atuação do coletivo?

O coletivo tem como objetivo principal a atuação em festas e eventos, oferecendo um espaço de atenção diferenciada e disseminando informação no local através de flyers, cartazes e outros materiais.

Nós montamos um espaço de informação e acolhimento. As festas são sempre um espaço agitado, com muito estímulo social e do ambiente. Então a ideia é montar uma espécie de ilha de conforto, para os momentos em que um pouco mais de calma ou uma conversa é necessária. Os redutores trabalham para manter uma tenda que funciona como um espaço acolhedor e de referência para que as pessoas possam circular livremente, conversar, tirar dúvidas, trocar ideias sobre suas sensações e sentimentos ou apenas ficar um pouco mais quieto. Oferecemos informações sobre os possíveis riscos de cada substância ou da mistura entre elas e, se esta for a decisão da pessoa, orientação para o uso menos prejudicial possível, prevenindo complicações. Assim, podemos ajudá-las a terem experiências mais suaves, harmônicas e com menos potencial de dano de curto e longo prazo. Também auxiliamos a tranquilizar quem está passando por alguma experiência especialmente difícil de sofrimento psicológico, promovendo bem- estar mental.

Além disso, também estamos inaugurando um canal de discussão através das redes sociais, para que possamos dividir referências, estudos e reflexões com o público. Futuramente, imaginamos levar esse espaço de debates para eventos, como workshops.

Vivemos num cenário em que a política de drogas é proibicionista, o que dificulta a disseminação de informações qualificadas sobre o uso de substâncias psicoativas e psicodélicas. Então esse é o primeiro objetivo do coletivo: estar próximo e informar as pessoas para que possam tomar a sua decisão sobre usar ou não uma substância da maneira mais esclarecida possível.

Que benefícios essa atividade pode trazer a quem frequenta as festas?

Vivemos num cenário em que a política de drogas é proibicionista, o que dificulta a disseminação de informações qualificadas sobre o uso de substâncias psicoativas e psicodélicas. Então esse é o primeiro objetivo do coletivo: estar próximo e informar as pessoas para que possam tomar a sua decisão sobre usar ou não uma substância da maneira mais esclarecida possível. Que saiba os riscos envolvidos, os  efeitos esperados ou mais comuns e os cuidados que devem ser tomados, desde beber a quantidade certa de água para manter a hidratação, prevenir doenças sexualmente transmissíveis, evitar misturar determinadas substâncias até não compartilhar material de consumo como agulhas e canudos. Se for do interesse do usuário, também podemos dar orientações e encaminhamentos a outros serviços de saúde ou bem-estar social existentes.

Outro benefício que podemos citar é o próprio espaço da tenda que oferece um clima acolhedor, menos estimulante e com profissionais e voluntários qualificados, para quem está se sentindo confuso ou perdido e precisa de algum conforto e apoio que as companhias de festa podem não estar em condições de oferecer.

Então podemos resumir que os benefícios são a promoção de saúde e bem- estar, através de informação qualificada e acolhimento às necessidades de cada indivíduo. 

É importante frisar que, mesmo contando com redutores e redutoras com diversas formações na área da saúde, não se trata de um ambulatório ou pronto- socorro. Não ministramos medicamentos ou procedimentos médicos e não é nossa intenção atuar como um serviço de emergência médica ou hospitalar. 

Qual a diferença desse serviço em relação aos espaços de atendimento médico que  vemos em algumas raves?

É importante frisar que, mesmo contando com redutores e redutoras com diversas formações na área da saúde, não se trata de um ambulatório ou pronto- socorro. Não ministramos medicamentos ou procedimentos médicos e não é nossa intenção atuar como um serviço de emergência médica ou hospitalar. Atuamos sobretudo com prevenção e o que fazemos é construir, de forma conjunta, um ambiente mais saudável a partir do diálogo e da integração, focando nos aspectos psicológicos, característicos da experiência com substâncias psicodélicas, os quais as equipes que prestam atendimento médico não têm condição e/ou estrutura para oferecer.

Como surgiu a ideia desse projeto?

Não é uma ideia nossa, esse tipo de iniciativa já existe em outros lugares, mas é preciso ter atores locais para que isso possa chegar até as pessoas. Nós nos inspiramos no trabalho do coletivo ResPire, da Associação Psicodélica do Brasil, da associação internacional MAPS, entre outros. Então a nossa intenção foi trazer essa atuação para a cena local, porque percebemos a ausência desse trabalho nas festas da região e sua importância como um gesto de promoção de saúde e cuidado com as pessoas.

E como vocês avaliam a receptividade do público?

Foi fantástica! Conversamos com muita gente legal, sentimos uma energia muito boa o tempo todo. As pessoas ficavam felizes de perceber que havia gente de mente aberta, pronta pra compartilhar suas viagens e oferecer um lugar de conforto. Percebemos que realmente servimos como um ponto de referência, que a qualquer momento estaria ali para acolher e apoiar. E essa sensação de segurança é muito válida para evitar ou lidar melhor com as famosas bad trips.

Tivemos relatos muito positivos: pessoas que estavam experimentando alguma substância pela primeira vez e ansiosas para tirarem dúvidas, pessoas que disseram que estavam “meio travadas” e conseguiram relaxar e aproveitar melhor suas conexões através do diálogo conosco, pessoas que tiveram acesso a informações importantes. Acreditamos que conseguimos evitar muitos possíveis mal-estares.

Quais são os desafios para a realização deste trabalho?

O primeiro desafio é romper o silêncio, quebrar o tabu sobre o tema. Existem organizadores de festas que não aderem à metodologia da redução de danos para não admitir que em seus eventos existe a presença de drogas. O uso de substância psicoativas, lícitas ou ilícitas, está presente nos bares, shows e eventos de qualquer estilo. Não é diferente na cena eletrônica. É claro que não são todas as pessoas que fazem uso ou abuso, mas deliberadamente ignorar a existência não é a única forma de lidar. É preciso amadurecer este debate em sociedade e buscar formas mais efetivas e que respeitem a autonomia de cada pessoa.

Além disso, é importante avançar na compreensão de que um espaço de redução de danos não é um gasto desnecessário, mas sim um gesto de cuidado e promoção de saúde para os clientes. A qualidade da experiência da festa como um todo melhora. É uma ação que, com uma estrutura mínima, pode fazer toda a diferença para o bem estar das pessoas e para a energia da festa.

A nossa expectativa, e nosso desejo,  é que a moda pegue e chegue ao ponto em que não seja mais possível pensar numa festa, indoor ou outdoor, sem um espaço de redução de danos. 

O que vocês imaginam para o futuro desta atividade na cena eletrônica?

A nossa expectativa, e nosso desejo,  é que a moda pegue e chegue ao ponto em que não seja mais possível pensar numa festa, indoor ou outdoor, sem um espaço de redução de danos. Desde festas privadas (PVT) até festivais. Esperamos que seja uma preocupação compartilhada entre quem organiza, promove e participa das festas. Acreditamos que curtir as festas promovendo seu próprio bem-estar e segurança é a melhor forma de aproveitar a cena, e estamos abertos aos organizadores e participantes que quiserem trocar uma ideia sobre isso.

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