O Grande DJ

Publicado em 15/05/2012 - Por

O que é um grande DJ?

Esta pergunta me veio a mente nos últimos dias. 

Num primeiro momento, tendemos a responder pelo lado óbvio: a questão musical, o trato com a coesão e coerência do set, a performance como um todo, desde a postura de palco até a estética da apresentação do artista. Estes pontos costumam ser conclusões que nos satisfazem nesta análise. Não deixam de ser respostas adequadas.

Entretanto, cometi um pecado.

Eu não me satisfiz com isso somente.


Sven Väth, um grande DJ, do ponto de vista musical.

Parece uma espécie de heresia eu querer exigir algo além disto deste tipo de profissional. Afinal, qual é a sua função? Executar com correção e responsabilidade aquilo que lhe é atribuído: apresentar um bom repertório, comunicar-se com o público durante seu show. Demonstrar, enfim, sua técnica, conhecimento, sensibilidade; sua arte.

Desculpem, meus amigos. 

Não fui capaz de me sentir respondido com tudo isso, ou apenas isso.

Um DJ de respeito, um grande DJ, para mim, executa tudo isso e algo mais.

Este sujeito, o cara foda, se propõe a ter e fazer o “algo mais”.

Gosto sempre de usar como exemplo Kaká, jogador do Real Madrid. Me parece claro que ele é um excelente atleta sob o ponto-de-vista técnico, tendo inclusive se tornado o melhor jogador do mundo em 2007. Porém, ele se passa a ser maior que o futebolista no momento em que procura usar a sua imagem para movimentar apelos e discussões pertinentes; utiliza seu status de grande jogador para propor novas opiniões e perspectivas sobre temas variados. Me lembro, em inúmeras ocasiões, de o ver durante entrevistas coletivas se posicionando, de forma segura e elegante, a respeito de debates à margem do futebol: política, saúde mundial, entre outros assuntos. A figura do atleta, neste sentido, se junta à do homem que tem consciência daquilo que fala e pensa, com a segurança de que o que disser pode contribuir  com o desenvolvimento humano e moral de quem o acompanha. Além disso, o estabilizará ainda mais como grande profissional. Ele é apenas um exemplo; há muitos outros que buscam se comportar assim.


Tenho acompanhado e observado excelentes DJ sob o prisma técnico. Grandes performances, ótimos sets, produções empolgantes. Mas, ao mesmo tempo, sinto falta de um posicionamento diferenciado da maioria de nós em algumas situações; demonstrações de que, além de artistas da diversão, poderíamos ser personagens importantes e influentes na formação de opiniões referentes a assuntos de interesse. Poderíamos ser uma alavanca de crescimento intelectual dentro de nossa área de atuação, ao mesmo tempo que também contribuiríamos para discussões que visem promover a reflexão geral a respeito de temas relevantes.

Parece humanitário demais, sensível demais, diplomático demais. Talvez ensebado demais.

Não há relação com pitch, com sincronias, com mixagens, com porra alguma disso.

Procuro traduzir como responsabilidade social. 

Vontade de querer contribuir. De ir além do meu papel óbvio.

Agir da forma que acredito que um grande DJ faria.


Tá faltando um Bono Vox para a cena eletrônica.

 

Algumas linhas de raciocínio dizem que isto tudo não deve passar pela seara de um DJ, ou de um atleta, ou de um ator, ou qualquer personagem público que seja. A responsabilidade de um grande profissional, neste sentido, seria a de executar bem sua função somente. A altivez de seu sucesso pertenceria apenas ao trabalho propriamente disso. Respeito esta opinião. Vejo pontos interessantes nela. 

Mas não vejo o diferencial.

Não vejo o grande DJ ai.

Talvez nosso público não busque no DJ este tipo de posicionamento. Exige de nós apenas aquilo que executamos em palco. Independentemente da forma que façamos, desde que dancem, tudo estará resolvido. 

Quem sabe seja uma chance, então, de promovermos uma filosofia diferente.

Acredito que um grande DJ faria isso.


Moby é um dos poucos DJs renomados que se envolve com caridade e humanismo.

 

Nos dedicamos, todos os dias, a desenvolvermos performances avassaladoras, inovativas, inventivas. Nos debruçamos na criação do set perfeito, o track perfeito, capazes de levar o grande público ao delírio. A pesquisa profunda durante noites pela faixa mágica, que fará a diferença em nossa apresentação; os avançados equipamentos que tornarão nosso espetáculo único. É o nosso dever fazer tudo isso com empenho, foco, determinação. Nossa estabilização profissional depende disso. A intensidade com a qual trabalhamos para solucionarmos estas missões poderão nos proporcionar o tão almejado status de grande DJ sob a ótica óbvia que citei no início dessa conversa. 

Mas os realmente grandes nunca se contentaram com o óbvio, sejam quais fossem suas profissões.

A discotecagem é uma arte que nos permite fugir da mesmice. 

A música eletrônica é algo que nos libera a desconstrução do senso comum.

Filosofemos sobre o que realmente fazemos para nos tornarmos, de fato, grandes.

Talvez tudo isso que escrevi tenha sido um sonho esdrúxulo, uma reflexão falida.

Uma babaquice.

Mas é o que acredito.

Busquemos ser grandes DJ, lutemos para ser fodas. Trabalhemos para ser grandes homens.

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