Uma reflexão sobre as mulheres e o PsyTrance

Você já perguntou porque os homens dominam os palcos dos festivais?

Camila Canabarro em 07 de Março de 2017

Faz algum tempo que eu queria postar essa matéria, por isso, decidi aproveitar a ocasião do Dia Internacional da Mulher e toda a visibilidade que ele traz para deixar aqui uma reflexão sobre esse tão pouco comentado na cena.

Apesar de existirem mulheres extremamente competentes e com excelentes trabalhos em nossa cena, em função de inúmeras questões culturais, o mundo da música eletrônica ainda é dominado pelo sexo masculino. Esse importante "detalhe", na maioria das vezes, passa desapercebido pelo público.

Historicamente ganhar a vida com profissões pouco convencionais faz mais parte da rotina dos homens e isso acaba refletindo também na música eletrônica. Como ocorre em outras áreas, a conquista de um maior espaço na cena eletrônica por conta das mulheres já está acontecendo e, como sempre, isso será sempre alvo de uma maior provação.

Pensando nisso, fomos buscar a opinião de mulheres que vivem o dia a dia do PsyTrance. Para cada uma das artistas entrevistadas fizemos a seguinte pergunta:

Analisando os festivais nacionais e gringos podemos notar uma clara predominância masculina em todas as áreas, desde DJs, VJs e produtores até empresários. Na sua opinião, porque não existem tantas mulheres atuantes na cena?

 

Inê Goa - Dj Inê

"Eu nunca passei uma discriminação por ser mulher, não diretamente, no sentido de algum produtor falar que vai contratar fulano porque ele é homem, ou porque ele é um melhor produtor porque ele é homem. Acredito que a sociedade carrega muito o preconceito, claro que eu escuto comentários machistas, como quando eu termino de tocar e algum homem chega e fala: Olha você toca melhor do que muito homem, esse é o auge do elogio de alguns, e, claro que para alguns isso realmente é um elogio, então procuro de colocar no lugar da pessoa.

Mas realmente, não existem muita mulheres tocando, não sei se falta coragem para elas subirem no palco. A mulher mixando é lindo, nós temos uma intuição, um sexto sentido, é tão lindo e todas deveriam pensar em fazer isso, estou sempre a disposição para ensinar e passar meus conhecimentos para todas, inclusive quem quiser é só me procurar. E dentro da produção é a mesma coisa, é claro que existe a parte braçal como montagem, apesar de que já vemos mulheres atuando nessa área, produção de tendas, etc. Mas existe também a parte de escritório e demais organizações onde arrasamos. E temos muitas aí como Ekanta, Frida, Claudiane, Paulinha, etc!

 

Angela Rodrigues - Dj Anginha

"Analisando os festivais nacionais e gringos podemos notar uma clara predominância masculina em todas as áreas, desde DJs, VJs e produtores até empresários. Na sua opinião, porque não existem tantas mulheres atuantes na cena?

Falando exatamente sobre o mercado onde eu atuo, o de djs, essa profissão desde seu início costumava ser dominada por homens. Mesmo quando não existia todo esse “glamour” em torno do dj, e ele ficava escondido dentro de uma cabine, poucas eram as mulheres que se arriscavam nesse ramo. Temos, portanto, uma diferença que remonta de anos atrás, época em que nossos pais costumavam repetir, sem pensar: “lugar de mulher é em casa”.

Existia portanto, preconceito, discriminação e sexismo, não somente dentro da música eletrônica, mas na sociedade em geral. Era aceito pelo senso comum que existiam “profissões masculinas e femininas”. Hoje, dia a dia, estamos mudando essa realidade: cada vez mais mulheres ocupam posições de destaque em profissões antes consideradas exclusivamente masculinas, nas mais diferentes áreas de atuação. A idéia da mulher frágil, submissa e apática está sendo cada vez mais abandonada, dando lugar a mulher independente e capaz, que pode fazer o que quiser, inclusive tocar e ser empresária, dj, vj ou tudo isso junto.

Mas é claro que toda mudança sempre encontra resistência. Muitas vezes essa resistência está em alguns padrões que até as mulheres repetem sem se dar conta. Nesses anos tocando, já passei e presenciei situações que aposto que nenhum homem passou. Por exemplo: ser bookada para uma gig, e sentir medo. Medo, simplesmente por ser mulher, e estar sozinha, em um lugar onde você não conhece absolutamente ninguém, não conhece a índole ou as intenções de quem te contratou. Acontece.

Aconteceu uma situação engraçada comigo esses dias em uma festa. Estava com alguns amigos na pista, assistindo a apresentação de uma mulher, que além de dj também produz suas tracks, e acontece de seu namorado também ser produtor. Estávamos assistindo ela se apresentando lindamente, até que algum ser humano faz o comentário: “ah mas parece que quem faz o som dela não é ela, é o namorado”. Você consegue imaginar a situação contrária? Um homem tocando, e alguém questionando a capacidade dele dessa forma? Eu nunca vi, honestamente. E já vi várias vezes esse tipo de comentário. Já sofri, inclusive, com coisas parecidas. Às vezes, até quem comenta é mulher, sem querer, sem perceber toda a carga de preconceito que uma observação como essa carrega.

Existe também o preconceito travestido de elogio. Outro dia me disseram: “olha Anginha, você toca uma sonzeira, eu acho que você não fica devendo nada para homem nenhum não”. Agradeci, educadamente. A desconstrução é um processo longo, leva tempo. Sexo não é relevante para o trabalho que eu faço. Não é sobre imagem, sobre aparência, é sobre SOM.

Algumas vezes eu perguntei para alguns amigos: você gosta de ver mulheres tocando? Por que? E na maioria das vezes a resposta a essa pergunta é: “ah elas são mais bonitas, mais graciosas, mais sensíveis, bla bla bla”. Eu acho que não é por aí. Enquanto não mudarmos esse discurso em que se valoriza beleza, aparência, as mulheres nunca serão verdadeiramente respeitadas. Conheço homens dj que tem uma sensibilidade musical absurda, isso não é uma característica exclusivamente feminina. É necessário transpor essa barreira, e ver a mulher em condição de verdadeira igualdade. Essa visão objetificada da mulher só reflete o machismo nosso de cada dia.

Eu acho que não existem ainda tantas mulheres nesse mercado, seja como dj, vj, empresária ou motorista de caminhão ou pilota de fórmula 1 pelo mesmo motivo: para quebrar paradigmas exige coragem. Somos capazes, sem dúvidas. Mas é preciso mais que isso: é preciso não ter medo de assumir os riscos, de se aventurar, não ter medo de ser ridicularizada (sim, infelizmente ainda tem gente que pensa que está na idade média e quer nos queimar na fogueira) e ter confiança. Além da paixão, é claro <3 É muito comum ainda mulheres que se subestimam e não acreditam nas suas próprias qualidades, infelizmente.

Estamos muito atrás ainda nesse placar, os homens ainda dominam esse mercado, muitas vezes os line-ups parecem aqueles programas de mesa redonda de futebol. Depende de cada um de nós virar esse jogo, quebrar os padrões. Seguimos, um pouco de cada vez <3 ".

 

Rosa Ventura - Dj Rosa Ventura / Venus Live

“Eu mentalizo em tudo o que faço uma frase de impulsionamento pessoal. - O mau do homem é o próprio homem. - Tenho em mente que somos seres humanos antes de tudo, iguais e capazes de tudo o que sonhamos. A sociedade nos impõe que o fato de ser mulher nos dá condição de aceitarmos somente uma grade de profissões. Ser dj? Trabalhar na noite? Viajar sozinha? Viajar com um bando de homens rodando o mundo tocando? Isto não é digno de uma mulher. Hoje também sou produtora musical e as questões também me acompanham como: Passar o dia e noite na casa do "amigo" produtor fazendo música? Ou ainda... tanto dinheiro com equipamento e perda de tempo em studio... e a educação do seu filho? Ah também sou mãe... então tem outra questão... você não acha que agora é hora de cuidar do seu filho? Você está aqui na festa e seu filho está com quem?

Se minha profissão fosse outra... eu estaria trabalhando, fazendo talvez as mesmas coisas como dormir tarde, viajar e etc... pelo filho... pelo futuro. E estaria tudo bem!

O ponto do qual quero chegar, é que o fato de ser mulher, ter uma família, um casamento, precisa ser algo muito respeitado e a mulher vista como um outro alguém que também tem seus sonhos, seu talento e não deixa de ser profissional. O outro ponto do qual quero chegar é que você mulher, não precisa ter medo de seguir em frente quando ouvir frases como estas. Tudo flui num bom caminho quando se faz o que ama e com foco. Tenho 14 anos de profissão e já vi inúmeras mulheres pelos 4 cantos do mundo desistirem de trabalhar na cultura psicodélica em geral por pressões como as que citei. Entendo todas elas, pois não é fácil. Hoje com todos esses anos de experiência, dou muito incentivo às novas artistas, digo para não terem medo e iniciar logo a jornada com estudo, respeito, postura profissional e se ver como ser humano sem distinção de sexo. Ahhh... o mau do homem é o próprio homem... é o EGO! Livre-se do excesso dele, pois sem ele você também não sai do lugar!".

 

Ieda Laimana - Dj Laimana

“Ainda observamos um pequeno, mas presente, preconceito com a figura feminina em certas áreas de trabalho. Não só na nossa cultura Trance, mas na sociedade em geral. Por sua vez, as mulheres que realmente se destacam na nossa cultura são duplamente vencedoras pois precisam ultrapassar essa barreira (a do preconceito) e ainda ter sucesso sendo mãe, mulher, amiga, namorada e profissional, sendo Dj, Vj, produtora ou conforme manda a veia artística. Tudo isso e ainda ter outra carreira por fora!! (empresaria, professora, médica, policial, advogada...). Então, ao meu ver, tudo depende de VONTADE!!! Temos nós que provar sempre nosso valor?! Pois bem…. Empoderamo-nos então irmãs!!! Somente assim podemos atingir a plenitude de nossos desejos e planos!! O segredo é a VONTADE!!!!! Amor pelo que faz, disposição, dedicação e outros sentimentos bons ligados a nós, são movidos pela VONTADE que temos de alcançar nossos objetivos... Independe de gênero!!!!".

 

Diane Moon Fernandez - Dj Moon

"Bom, verdadeiramente temos um número muito diferente entre gêneros que vai de 90% homens a 10% de mulheres. Existem estudos relacionados com vários tipos de atividades que as mulheres são minoria em profissões como engenheira mecânica, e até arquitetura.
Acho que isso acontece pelo desconhecimento, visão equivocada das tarefas profissionais e falta de informação. Existe pouca informação sobre a carreira de Dj no mundo comercial, pouca divulgação mostrando que essa pode ser uma opção de vida. Sendo que a maioria das mulheres pensam que essa é uma profissão apenas para os homens e acreditam que não conseguiriam realizar essa tarefa. Nós mulheres que atuamos na área vemos grandes oportunidades de trabalho devido ao nosso gênero. Quem não gosta uma menina no palco? ❤ Isso nos dá muitas oportunidades”.

 

Originalidade, trabalho duro e muito talento fazem parte do trabalhos dessas mulheres que inspiram tantas outras por aí.

Girl power!

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