Review: Daft Punk – Random Access Memories

Publicado em 20/05/2013 - Por Mohamad Hajar

Um ano atrás eu fiz um review que classifiquei como um dos mais difíceis em anos de Psicodelia.org: tratava-se do álbum Army of Mushrooms, do Infected Mushroom. Foi difícil pois o álbum não agradou, e precisaríamos falar a verdade sobre dois artistas com muito simbolismo embutido: foi graças a ele que eu e Eliel entramos para o mundo das raves sete anos atrás, além de terem sido forte influência na criação do nome e mascote do site.

Um ano depois estou aqui com uma tarefa ainda mais difícil: falar do polêmico álbum Random Access Memories, de Daft Punk. Se Infected me levou pra rave em 2006, foi o Daft Punk que proporcionou o meu primeiro contato com a música eletrônica em 1999, quando comprei o CD Discovery – sem contar que a intro do primeiro set do Kultra também foi com uma música do duo (Harder, Better, Faster, Stronger). Enfim, as músicas vazaram na segunda-feira (13), mas esperei até quarta-feira (15) para ouvir – e até hoje (20) para emitir qualquer opinião.

Antes de falar das músicas em si, vamos falar de todo o ecossistema criado em torno desse lançamento. Foi, sem dúvidas, uma das maiores campanhas de marketing da história da música – eletrônica ou não. O novo visual deles foi patrocinado pela Yves Saint-Laurent, o pré-lançamento foi exclusivo da Apple (via iTunes), houve um especial “The Collaborators“, com documentários mostrando um pouco sobre cada participação especial que o disco teve, entre diversas outras formas de criar uma expectativa imensa no público – culminando no lançamento de Get Lucky, o primeiro single do disco. E aí que as coisas começaram a ficar “confusas” pro público.

Bem, vamos agora pensar com a cabeça do público – e falo de todos nós como uma coisa só, é claro que individualmente cada um terá a sua opinião. Enfim, hoje nós somos um grupo carente, muito carente de qualidade. O mainstream é dominado pelo house denominado big room – para quem não conhece a terminologia, é fácil de descrever: som farofa e repetitivo que rola no palco principal do Tomorrowland (e festivais similares). A geração David Guetta, Avicii, Swedish House Mafia inundou o mundo com música eletrônica vazia – aquela velha receita do pop Billboard, de 4 acordes manjados, um vocal pegajoso e curta duração, aplicada aos timbres e elementos do electro house. No começo era legal, mas já se passaram anos e ainda estamos estacionados na mesma coisa. Alguns poucos de diferenciaram – deadmau5 e Skrillex por exemplo – mas ninguém conseguiu marcar época como Daft Punk fez. Todos nós estavamos sentido falta disso, dessa liderança, desse artista com cacife e culhão pra chegar e dizer “tá tudo errado, vamos fazer assim” – aí vem o Daft Punk depois de 8 anos sumido, e nos empolga com essa mega-campanha de retorno. É claro que a expectativa estava altíssima.

Usar Get Lucky como primeiro single foi um ato ousado – exagerado até, eu diria. Um mundo que esperava pela salvação da EDM foi chocado com o Daft Punk vestindo YSL, tocando baixo e bateria, com Pharrell gemendo nos vocais. Teriam eles se vendido? Será que são as mesmas pessoas dentro da máscara? Enfim, que porra era essa? Get Lucky foi duramente criticada (por mim inclusive), mas nesses anos de música eu aprendi uma coisa muito importante: as melhores expressões artísticas não são facilmente digeríveis. Comecei a dar outras chances – e quando dei atenção para a letra que tudo começou a fazer sentido.

“Nós viemos longe demais para desistir de quem somos”

O Daft Punk sempre teve o seu estilo, e nunca teve medo de fazer música com vocais pegajosos – ta aí One More Time (melhor música eletrônica da história, segundo votação promovida pela Mixmag) pra provar. E se pensarmos na base da música, é o estilo deles, puro. OK, Get Lucky “aceita”, vamos ver o que mais vem por aí.

A forma de divulgar o álbum em um streaming de track única foi muito bem pensada também: ele conta uma história por completo – assim como Discovery fez tendo Interstella 5555 como apoio, mas dessa vez sem imagens. Para apreciar este disco é preciso, primeiramente, limpar a mente de todo e qualquer preconceito. Se até a terceira faixa, Giorgio by Moroder, você ainda não tiver feito isso, ele te chama a atenção: 

“Uma vez que você liberta a sua mente de um conceito de harmonia e música como corretos, você pode fazer qualquer coisa que você quiser. Então ninguém me disse o que fazer, e não havia nenhuma ideia preconcebida do que fazer.”

O Daft Punk não veio pra salvar a música eletrônica, pois esse é um conceito que não deveria existir. Música é música, seja fruto de batuques na mesa, de uma guitarra elétrica distorcido por pedais, ou de um sintetizador ligado a um computador. O que o Daft Punk fez é uma bela forma de unir música “orgânica” com eletrônica, criando um trabalho único no mainstream. Os vocais sintetizados, marca registrada deles, estão presentes em quase todo o álbum, e a atmosfera criada, as sensações transmitidas, são de qualidade digna de tudo o que o duo já fez.

Duas coisas importantes de se notar: primeiro que o álbum não tem tour, e segundo que Thomas Bangalter já deixou claro em entrevistas que é um álbum “experimental” – tudo leva a crer que o próximo release do Daft Punk será menos “fora da casinha”, e deverá ser voltado para as pistas. Inclusive, Thomas já afirmou em entrevista que eles mesmos remixarão várias faixas desse álbum, de forma a torná-las “tocáveis” em pistas de dança. Todo o pânico acerca do “abandono da EDM” é puro desespero sem conhecimento de causa. 

Comparar os trabalhos é sempre algo difícil de fazer, talvez Homework e Discovery realmente sejam melhores do ponto de vista técnico e criativo, mas Random Access Memories veio na hora certa, na medida certa. O lançamento oficial é amanhã (21), e com o tempo todos iremos digerí-lo bem, e nos restará torcer para que músicas desse nível de qualidade tomem a rádio e os grandes festivais das mãos do big room vazio.

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